das conversas com edu Silva

 

Os chamados não-lugares, para Marc Augé, são como um espaço de passagem incapaz de dar forma a qualquer tipo de identidade. Edu Silva é um pintor das peles. Pinturas, escrituras de cores-camadas e entre-linhas-intervalos. 

Pinturas-carne-ossos-vísceras !

Pardo, dizem que é cor. Cor de pele. Não existe na escala de cores, mas nas pinturas-caRnadas de Edu Silva. Nas pinturas VIDA que pulsam. Pululam. Na pintura escavada de formantes matéricos, da Arte e da Vida. Sem concessão.

Edu, desde sua pintura-nascente dialoga com os latino americanos, com Torres Garcia, uma estrutura finamente trabalhada, porque assumida entre os ditos, os não-ditos, os não-lugares. 

Com os cromatismos de Armando Reverón, a “borrar” tons e cores, palhetas e policromias, paisagens e “surrealismos”, situações a entre-ver. Artistas das Américas Latinas e suas ousadias antecipando os “movimentos” da arte, chamada europeia e americana.

“Pardo é um termo usado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para nomear um dos cinco grupos de ‘cor e raça’ que compõem a população brasileira: brancos, pretos, amarelos e indígenas”. E pardo, a cor dos mestiços. Como se não fôssemos, no mundo, todos mestiços. Cada um de nós é muitas etnias. Discordo dessa “pardassagem”. Um “pardismo” escanteador. Negador de vidasAcesas.

 

Edu assume e pinta as carnes-pardas, pesquisa esse lugar da cor-aditiva de tintas-e-materiais-pardos. Vigorosos !

Edu desenha mínimas luzes entre contrastes de cor, linhas desenhantes e linhas escultóricas. No limiar. Um cromatismo aqui outro ali. Todos lá, afastamentos que se interpenetram. Em uníssono. Edu não opõe. Engloba. Sustenta uma cor-luz que se realiza e nos a.tenta. A pintura VAZA. Contamina. A pintura VIBRA. 

A cor, em Edu Silva é gerúndio. Pintura Acontecente !

 

Lucimar Bello. 07.02.2020 

edu Silva: o arquipélago mestiço

 

Muito importante que nestas experimentações pictóricas sobre a mestiçagem Edu Silva tenha abandonado qualquer menção temática ou ideológica: o que importa são as massas cromáticas, grandes ou miúdas, enormemente decorativas, que se aproximam e se encaixam, mostrando as costuras entre contrastes ou pequenos alinhavos e cerziduras mirins, essas moléculas de passagem de uma cor para outra. Valem muito aqui estes pontos ou nós de entrelaçamento, esse gesto do bordado que liga uma coisa à outra. Já estamos agora longe do uso trivial, apressado e modernoso do termo “hibridismo”.

 

O que interessa é a juntura (não aquilo ou quem está junto) como dobradiça móvel em andamento e expansão, metamorfose inconclusa e infinita das formas e materiais. Trata-se aqui de educar os olhos para ver “isso que enlaça uma pérola com outra”, conforme diziam os músicos e poetas afro-árabes. Jogos de forma e luz que estão nas relações entre cultura e natureza muito antes dos sujeitos. 


Portanto, ao abandonar as dualidades de oposição, Edu dá preferência aos mais variados e assimétricos campos de relação e aos processos internos constitutivos das coisas (que sempre se compõem com partículas de muitas outras). Confere assim continuidade ao descontínuo. Conjuntos/formatos matizados, numa gama colorista esplendorosamente lapidada, se

intersectam sintaticamente, por meio de cortes e chanfraduras sinuosos e retorcidos, parecendo colhidos de um magma telúrico e tectônico no compasso dos abalos de reacomodação sísmica. Pintura, escultura, arquitetura em dança de cores.

 

Formas mestiças no fundamento terroso e pedrento das coisas. Daí que as mesclas e suturas deixem sempre à mostra e ao vivo saliências geológicas feitas de calombos e murundus rombudos, com suas roçaduras calosas, que expõem as interações entre as diferenças e os paradoxos entre o grande e o pequeno, o alto e o baixo, a frente e o verso, o direito e o avesso: todas essas tarefas da criação de um panorama de conhecimento lúdico-mestiço e nativo-atual para fora de todas as domesticações da história oficial, “antiga” ou “moderna” (seja de que lado essa domesticação facilitadora vier). 

 

Essa é uma festa das alteridades incrustadas. Aquilo que no barroco se diz lista díspar, pela inclusão participante de repertórios desiguais e abandonados, Edu traduz como arquipélago mestiço. Atenção: parece que sempre novos barrancos, ilhas ou recifes vão surgir e recompor a paisagem, os bairros, os corpos e a vida.

 

 

 

Amálio Pinheiro

edu Silva e os processos artísticos para a construção de sensações

 

As obras de arte construídas pelo artista visual Edu Silva são resultado de seus processos de pesquisa e tem como ponto de partida questões sociais e raciais. Ao mesmo tempo, as composições projetam-se e diluem-se em manifestos artísticos, com fundamento e estrutura em procedimentos resultantes da articulação de vivências particulares em técnicas produtivas, exclusivas, inéditas e atualizadas com a realidade contemporânea.

As obras da série Estudo sobre mestiçagem reverberam esta combinação vivência/referência/construção. Estas associações se fazem evidentes a partir das composições abstratas em planos de cor elaborados com tinta acrílica em tela. Zonas monocromáticas irregulares disputam alternadamente espaços matizados, onde a cartografia resultante da citada delimitação reforça e valida as convicções do artista na realidade que o atinge e circunda.

Assim, as controvérsias na sobreposição de camadas auguram deslocamentos projetivos entre o caos e o vazio, entre as fissuras e a completude sensorial, em frames editados em cada obra e na concepção original delas. Os processos de criação de Silva estão fundamentados, porém não delimitados, nas vivências dele na periferia de Embu das Artes, São Paulo, Brasil e em seus inerentes conflitos de realidades entre classes sociais.

Para Edu Silva, a abordagem e representação destes temas fazem parte de sua pesquisa artística: as fissuras cartográficas e o cromatismo dos manifestos visuais convergem expressões da resistência e declaração do desejo do artista de fazer parte de um mundo sem diferenciação de cor, raça, sexo e, principalmente, do seu respeito a diversidade.

Já na série Autorretrato, a formatação cromática dilui-se na relação literal entre a segregação e a mestiçagem, na experiência do artista com o outro. A manifestação se evidencia nas marcas tridimensionais das linhas diagonais que expressam-se delineadoras adirecionais de camadas pictóricas irregulares estruturadas. Ao mesmo tempo que sugere sinais de ruptura com visões

topográficas de passagens e paisagens, faz transgredir sua produção artística como catalisador de processos de construção e discussão estéticas contemporâneas.

As obras foram exibidas pela primeira vez na exposição coletiva Pintura Expandida na Galeria Virgílio em 2018. O texto da mostra indicava que a projeção e transgressão das composições partiam de interstícios processuais de carga autoral acentuada: aquela sensação que, segundo o filósofo Gilles Deleuze, está no corpo, e não no ar. 

 

a sensação é o que é pintado. O que está pintado no quadro é o corpo, não quanto representado, mas enquanto vivido como experimentando determinada sensação1.

O complemento e o equilíbrio na mesma dimensão dos corpos se inserem eufemisticamente nestes espaços, em intervalos de tensionamentos - os agentes artísticos contemporâneos. Revela-se assim a vontade do artista, não de reproduzir ou inventar formas, mas de captar e projetar forças, tornando-se visível na essência de Paul Klee.

Andrés I. M. Hernández
Curador e professor. São Paulo verão de 2018

1 Ver DELEUZE, Gilles. Francis Bacon: Lógica da sensação. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2007

sobre coisas difíceis

 

O desenvolvimento de um trabalho em artes não é imediato nem linear. 

Se entendermos esse processo como pensamentos que são sistematizados, de maneira particular pelo artista, e adquirem conformação, material ou imaterial, conseguimos ter a possibilidade para um entendimento mais pleno do trabalho executado. Alguns artistas, em qualquer linguagem, tornam sua produção mais complexa ou “difícil” dotando-a de características que parecem incompreensíveis ou são menos assimiláveis. Há duas linhas de compreensão para este enunciado: uma considera este tornar-se “difícil” uma opção enquanto estratégia e com implicações variadas. A outra é menos opção que necessidade, pois esse artista precisa alcançar algo que ele não sabe o que é.

 

As pinturas recentes de Edu Silva são difíceis; principalmente se comparadas a sua produção anterior onde a representação do espaço de vivência (o bairro, as casas) era figurativo em certa medida e com uma opção gráfica que dialogava com os grafittis. Isto, evidentemente, tornava-as mais assimiláveis, mais “fáceis”. Todavia, como foi dito antes, deixa-las mais complexas não foi opção e sim consequência necessária do tecido imaterial onde mesclou suas tintas, à saber: as tramas e urdiduras da realidade social e os espaços onde ela se organiza e ocorre. O que legitima essa sua busca é a honestidade com o que produz e consigo mesmo, ainda que isso não seja garantia de nada para si[1] , ainda mais em tempos de desgaste abrasivo sobre essa palavra. Estes aspectos imateriais, ou não formais, poderiam tornar sua obra mais assimilável se ela fosse premida por algo diverso da honestidade e sucumbisse ao panfletário como vemos usualmente. Seu caminho é outro.

A junção dos componentes imateriais entremeados aos aspectos formais, que esteticamente Edu utiliza, tem matriz moderna, mas como um jogo entre material e imaterial extremamente contemporâneo; não como moda, mas como inquietação própria do tempo que vivemos. Esse “jogo”, ou negociação, acontece em vários estágios concomitantes, do qual o espaço é o estágio fundante para que dois “times”, como em um bom jogo, ajam em campos opostos: um é o espaço material da tela e o outro é o espaço urbano das periferias, real, mas tornado imaterial através da subjetivação do olhar e sua consequente abstração construtiva. A maioria das telas utilizadas possuem o formato quadrado, como se o espaço regular de lados iguais tivesse a capacidade de equalizar as tensões que ocorrerão em seus limites. Tal como se as periferias contidas em nacos distantes aplacassem as tensões sociais. Penso que muito da tensão presente nos trabalhos desta exposição surgem da necessidade auto imposta pelo artista de conter a tinta nesta quadratura.

Estabelecido o campo de atuação de forcas o estágio seguinte é conformado pelas cores. Aqui Edu Silva tratará as questões raciais e de segregação que o afligem de maneira inusual, onde o pensar sobre possui uma elaboração intelectual natural (e por isso mesmo tão feliz em sua consecução) que surpreende. Ao denominar esta série de pinturas “Estudos sobre Mestiçagem” ele explicita a questão principal de suas pesquisas e inquietações, mas não se vale disso de maneira panfletária. Ele rompe com o encaminhamento usual ou mais simples de usar uma paleta “humana” (nas palavras do artista) para representações óbvias em relação ao tema pretendido [2] .

Edu usa a liberdade para desenvolver uma paleta que busca uma harmonia complexa, através de uma construção  que organiza o espaço  por meio de planos de cores predominantes espacialmente, normalmente em dois tons, com fatura mais uniforme que cobrem boa parte da tela; em algumas as bordas dessas áreas estão “manchadas”, em outras isto não acontece. Surgem entre esses campos de cores fissuras com cores outras que afloram e se tornam visíveis, muitas vezes enfatizando a área menor. A convivência entre essas cores belas e conflituosas, com suas interações negociadas à duras penas entre as fissuras ou bordas da tela,  como se forçassem a trama de um tecido íntegro e coeso, mas na verdade puído, que cobre tal qual um tapete aquilo que não deve ser mostrado. Qualquer semelhança com nossa sociedade não é mera coincidência.

A junção arte e política sempre foi prejudicial para a primeira. Ao incumbir a arte de uma função, normalmente ela se rebaixa ou perde sua potência exatamente onde foi requisitada. Já foi dito que a arte alcança o objetivo que não tem[3] . Definir um objetivo, uma função, é diferente de ter com que e sobre o que produzir arte. Daí decorre, para artistas como Edu Silva, as incertezas, as angustias de uma produção que está em embate constante entre o fazer e o comunicar algo. Acredito que a série “Estudos Sobre Mestiçagem” retira sua força também de uma necessidade de beleza que Edu persegue insistentemente. Não é a beleza pasteurizada ou do senso comum, mas sim aquela beleza que incomoda e que, sobretudo, nos faz pensar; que nos faz olhar as coisas com calma e questionar que, sim, há outras possibilidades nas relações entre os diferentes convivendo num mesmo espaço, desde que haja um desvelamento sincero daquilo que está oculto. Porém, não nos enganemos: isto não é fácil.

Conta-se que um filósofo e um respeitado sacerdote conversavam sobre o que seria o belo. Os questionamentos se alongavam e o filósofo ia demonstrando, ardilosamente, que a beleza poderia assumir várias formas ao que o sacerdote ia retrucando que isto não era possível pois a beleza deveria residir em coisas elevadas ou consensuais à maioria das pessoas. Polidamente, o filósofo fez ver ao sacerdote que era possível se enganar a respeito da beleza e onde ela residia , desde que fossemos capazes de ir além da doxa (opinião), expandindo nossa compreensão através de questionamentos e concluía a conversa com uma frase:

“A beleza é coisa difícil” [4]

 

Marcelo Salles

     

 

[1] Citação à Clement Greenberg in Crônica de arte, pg.179, Arte e Cultura, editora Cosac & Naify.

[2] Recentemente a artista Adriana Varejão apresentou uma serie de telas (Polvo Portraits) onde desenvolveu uma paleta de tons “de pele brasileira”. Ainda que conceitualmente irreprensível o resultado é um tanto constrangedor .

[3] a autoria desta frase parece ser de Benjamin Constant; citado por Jean Philippe Domecq in Uma Nova Introducão à Arte do Século XX

[4] Hípias Maior, diálogo platônico entre Sócrates e Hípias Maior

© edu silva

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